A invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela em 3 de janeiro e o sequestro do presidente Nicolás Maduro representam um divisor de águas na crise do imperialismo mundial.
Como o World Socialist Web Site declarou, a invasão marca “uma total repudiação por parte do regime Trump de qualquer aparência de legalidade. É uma guerra de agressão não provocada lançada em flagrante violação do direito internacional e realizada para reimpor o controle colonial sobre a Venezuela e toda a América Latina”.
O caráter neocolonial do ataque foi proclamado abertamente pelos gangsters da Casa Branca. “Teremos nossas grandes companhias petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores de todo o mundo, entrando lá, investindo bilhões de dólares”, declarou Trump no sábado.
A operação na Venezuela representa um alerta a toda a região de que qualquer governo que resistir aos ditames dos EUA enfrentará o mesmo destino. As ameaças de Trump contra o presidente colombiano Gustavo Petro – declarando “Petro é o próximo” e que “é melhor ele se cuidar” – deixam explícito que o ataque de 3 de janeiro a Caracas visou estabelecer um precedente para uma erupção de violência imperialista em todo o hemisfério.
Reafirmando os objetivos declarados de seu governo de assegurar a dominação irrestrita sobre a América Latina e além, Trump disse na coletiva de imprensa de sábado: “A Doutrina Monroe é algo grande, mas nós a superamos muito, muito mesmo. Agora eles a chamam de Doutrina Donroe”.
O “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, em toda sua insanidade, brutalidade e criminalidade, reflete a posição objetiva de desespero do capitalismo norte-americano. Na América do Sul, ele foi escanteado pela China como principal parceiro comercial e um dos principais investidores nos países da região. Washington busca reafirmar sua hegemonia perdida por meios militares.
A guerra e a intervenção colonial direta de Washington mergulham a já decrépita ordem política da América Latina no caos. Em suas respostas à crise forjada pelo imperialismo, todas as facções políticas da burguesia nacional revelam sua podridão avançada.
De um lado, os nacionalistas supostamente “de esquerda” da Maré Rosa demonstram-se totalmente incapazes de responder à agressão de Trump e sua subordinação de fato aos ditames do imperialismo. Do outro, os governos e forças políticas fascistoides que se espalham pelo continente deixam clara a integração de seus objetivos ditatoriais violentos à ofensiva neocolonial dos EUA.
Entre o primeiro grupo, a declaração mais emblemática veio do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que foi um parceiro de Hugo Chávez durante a “primeira onda” da Maré Rosa no início do século.
No sábado de manhã, Lula declarou no X: “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”. Como de costume, Lula recusou-se a nomear os Estados Unidos ou Donald Trump como autores dos referidos bombardeios e captura. Em vez disso, concluiu: “A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”.
Esta declaração covarde dá continuidade à crescente colaboração de Lula com Trump nos últimos meses. Como o WSWS documentou, Lula participou de uma série de conversas com o presidente fascista dos EUA, oferecendo-se para mediar seus objetivos de rapina na Venezuela e promovendo a agenda de Trump.
Os outros líderes da Maré Rosa – Claudia Sheinbaum do México, Gabriel Boric do Chile e Gustavo Petro da Colômbia – fizeram variações do apelo falido de Lula a uma ordem internacional baseada em leis que já foi esmigalhada pelo mesmo imperialismo que a criou.
O presidente chileno Gabriel Boric expressou sua “preocupação e condenação às ações militares dos Estados Unidos que se desenrolam na Venezuela” e fez “um chamado à busca por uma saída pacífica à grave crise que afeta o país”. Esse “protesto” é pura hipocrisia. Ao longo de todo seu mandato, que se aproxima do fim, Boric se destacou como o colaborador mais direto do imperialismo dos EUA-OTAN entre os líderes da Maré Rosa.
Boric – um destacado expoente das políticas de protesto da pseudoesquerda chilena – apoiou sistematicamente os ataques de Washington contra a Venezuela e países como Cuba e Nicarágua, justificando a escalada imperialista sob a bandeira fraudulenta de combater o “autoritarismo” na região. O líder chileno abandonou completamente essas pretensões moralistas na hora de oferecer sua colaboração e apoio ao seu sucessor eleito à presidência, o fascista José Antonio Kast, um admirador declarado da ditadura assassina de Pinochet.
O presidente colombiano Petro, que se tornou um alvo cada vez mais explícito da ofensiva de Trump – o que não provocou quaisquer protestos de seus colegas nacionalistas covardes – abaixou significativamente o tom em sua resposta ao mais recente ataque dos EUA. Petro, que destacou paralelos entre Trump e Hitler na última Assembleia Geral da ONU em setembro, limitou-se a declarar que “o governo da Colombia rechaça a agressão à soberania da Venezuela”. Assim como Lula, Petro não fez menção aos Estados Unidos ou Trump, concluindo sua declaração com o anúncio de que a Colômbia “deve manter canais diplomáticos abertos com os governos envolvidos e promoverá, nos espaços multilaterais e regionais pertinentes, iniciativas orientadas à verificação objetiva dos fatos, e à preservação da paz e segurança regional”.
A resposta complacente da Maré Rosa à agressão sem-precedentes doimperialismo americano culminou com a publicação de uma declaração conjunta entre Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha. A nota repetiu as mesmas “preocupações” hipócritas e apelos cínicos por “vias pacíficas”, “diálogo” e “negociação”.
Essas declarações expõem a total falência da perspectiva nacionalista da Maré Rosa. Seus signatários estão indignados, não com agressão imperialista dos EUA em si, mas com a exposição nua e crua dos termos reais da ordem capitalista imperialista à qual eles próprios se orientam.
Em contraste com os apelos patéticos da Maré Rosa ao bom senso dos imperialistas, os governos de extrema-direita e as forças políticas fascistoides da região saudaram em alto e bom som o ataque criminoso de Washington à Venezuela. Esses elementos tomaram o ataque como oportunidade para promover agressivamente suas próprias agendas ditatoriais.
O presidente fascista da Argentina, Javier Milei, que age como a ponta de lança do imperialismo no continente, imediatamente celebrou o ataque. “Viva la libertad, carajo!”, ele postou no X. “Apoio total aos Estados Unidos, apoio total à ação dos EUA”, declarou mais tarde em uma entrevista.
Ainda mais gritante foi uma declaração oficial do governo argentino emitida no mesmo dia do ataque. Resgatando a retórica nefasta da ditadura militar patrocinada pelos EUA, que aterrorizou a classe trabalhadora e a juventude argentina entre 1976 e 1983, o COMUNICADO OFICIAL NÚMERO 126 declarou:
O regime socialista encabeçado por Nicolás Maduro é atualmente o maior inimigo da liberdade no continente, cumprindo hoje um papel similar ao que teve Cuba nos anos setenta, exportando o comunismo e o terrorismo a toda a região. Entre suas operações realizou interferências eleitorais na Argentina, México, Colômbia e Bolívia; empregou estratégias de infiltração em vários países do continente via ataques de migração em massa; desenvolveu alianças com várias ONGs progressistas para promover a esquerda radical no mundo; fortaleceu laços com o Irã e o Hezbollah; deu apoio logístico ao Hamas e às guerrilhas na Colômbia; e tudo isso foi financiado com receitas do narcotráfico derivadas do Cartel de los Soles, uma organização que foi declarada grupo terrorista por este Governo em 26 de agosto.
Variações desse apoio servil ao imperialismo americano combinado a denúncias fascistoides ao comunismo foram entoadas por outros líderes regionais de extrema-direita.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, emitiu uma declaração oficial alegando que Maduro era o “líder de uma organização criminosa formalmente declarada terrorista pelas autoridades paraguaias” e que sua “permanência no poder representava uma ameaça à estabilidade regional”. Em 15 de dezembro, o governo de Peña assinou um Acordo de Estatuto de Forças (SOFA em inglês) com Washington, estabelecendo as bases legais para os militares americanos atuarem com “botas no chão” (como disse Trump) no Paraguai.
No Chile, enquanto Boric proferia seus sofismas sobre uma “solução pacífica” na Venezuela, seu sucessor fascista não mediu palavras ao apoiar a intervenção de Washington.
Kast celebrou o sequestro criminoso de Maduro pelos EUA como “grande notícia para a região” em uma postagem no X. Ecoando os pretextos descaradamente falsos de Trump para sua guerra neocolonial, o admirador chileno de Pinochet definiu o governo venezuelano como um “narcorregime ilegítimo” do qual “estruturas criminosas e terroristas operam e ameaçam gravemente a paz e a segurança regionais”. Ele então defendeu que os “governos latino-americanos” embarquem numa cruzada “contra o narcotráfico e o crime organizado” pelo continente.
No Brasil, os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro – atualmente preso por tentativa de golpe de Estado em 2022-23 – aproveitaram o ataque à Venezuela para aprofundar sua ofensiva fascista renovada pelo poder.
Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, celebrou a invasão sublinhando suas implicações diretas ao próprio governo brasileiro. Ele escreveu no X: “O regime venezuelano é o pilar financeiro, logístico e simbólico do Foro de São Paulo. Com a captura de Maduro vivo, agora Lula, Petro e os demais do Foro de São Paulo terão dias terríveis, anotem”. O fascista brasileiro fala com certa propriedade. Eduardo teve seu mandato de deputado federal cassado em 18 de dezembro por sua ausência das sessões da Câmara desde que se mudou em fevereiro de 2025 para os EUA, de onde coordena as atividades da extrema-direita brasileira com representantes do governo Trump.
Seu irmão, Flávio Bolsonaro, deu sequência ao ataque, anunciando: “Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas”.
A referência a “eleições fraudadas” por Flávio, que está se lançando como candidato presidencial para as eleições de outubro no Brasil, não é casual. Ela indica como os arquitetos da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 em Brasília pretendem continuar perseguindo seus objetivos ditatoriais sob condições internacionais muito mais favoráveis.
A resposta podre e reacionária de todas as seções da burguesia latino-americana à invasão dos EUA à Venezuela deve ser tomada pela classe trabalhadora como demonstração da inadequação de todas as perspectivas nacionalistas na época do imperialismo.
A Maré Rosa representa apenas o último capítulo na história do nacionalismo burguês na América Latina. Como o Grupo Socialista pela Igualdade do Brasil observou em sua declaração de agosto de 2025, “Não à agressão imperialista dos EUA contra a Venezuela! Pela unidade da classe trabalhadora nas Américas!”:
O naufrágio do projeto burguês falido da Maré Rosa marca a crise final das experiências com o nacionalismo burguês na América Latina. Mais de um século de traições e derrotas demonstrou a absoluta incapacidade de programas puramente nacionais resolverem os problemas sociais e democráticos básicos da América Latina, muito menos acabar com sua opressão pelo imperialismo.
O colapso da ordem burguesa na América Latina sob o fogo do imperialismo e do fascismo intensifica contradições sociais explosivas com implicações diretamente revolucionárias.
Como o WSWS enfatizou em sua declaração sobre a invasão, o regime de Trump tem “um encontro marcado com a catástrofe” na Venezuela. Ele é incapaz de restabelecer um colonialismo aberto, assim como os regimes ditatoriais ambicionados por figuras como Milei e Bolsonaro são incapazes de produzir formas estáveis de dominação burguesa.
A América Latina passou por uma mudança radical desde o período das ditaduras militares apoiadas pelos EUA. A classe trabalhadora se tornou a força social mais massiva na sociedade, concentrada em megacidades com dezenas de milhões de habitantes – São Paulo, Cidade do México, Buenos Aires, Bogotá, Lima – com conexões profundas com a economia global e a classe trabalhadora internacional.
Se os trabalhadores latino-americanos ainda não deram uma resposta política organizada à revoltante intervenção imperialista, é porque as velhas organizações de massa – os sindicatos e partidos reformistas – foram completamente desmoralizados e expostos como instrumentos do capitalismo. Mas uma resposta de massas é inevitável, e será ainda mais explosiva por seus anos de supressão. Ela emergirá de forma intempestiva e ao mesmo tempo que novas organizações de massa genuinamente representativas da classe trabalhadora serão erguidas.
A erupção revolucionária que se avizinha demanda um programa correto, que rejeite o nacionalismo burguês e pequeno-burguês em todas as suas formas e clame o socialismo internacionalista.
Essa perspectiva exige que os trabalhadores latino-americanos voltem-se não para suas “próprias” burguesias nacionais, mas para seus irmãos e irmãs de classe nos próprios Estados Unidos em uma luta unificada para derrubar o imperialismo. Como o WSWS enfatizou, “a luta contra a guerra é uma luta contra o sistema capitalista que a gera”, exigindo a união dos trabalhadores para “abolir o capitalismo e estabelecer o socialismo como a base de uma nova sociedade”.
