O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, na semana passada, como convidado de honra das potências imperialistas reunidas para decidir os próximos passos de uma guerra mundial em escalada e da ofensiva brutal às condições de vida da classe trabalhadora internacional.
Ali, em uma conversa descontraída com os chefes do FMI e do imperialismo alemão à margem das discussões principais, o presidente brasileiro — ex-sindicalista e líder vitalício do Partido dos Trabalhadores (PT) — tranquilizou-os casualmente: “Nunca fui esquerdista.”
A conversa foi espontânea. “Quando você foi presidente pela primeira vez, todos esperavam que você fosse um esquerdista, mas você não foi”, observou Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional. Lula respondeu sem hesitar: “Mas eu nunca fui esquerdista.” Ao lado deles estava o chanceler alemão Friedrich Merz, que lidera o maior rearmamento de seu país desde a Segunda Guerra Mundial.
Lula acrescentou:
Nos Estados Unidos, os republicanos ficaram mais no governo do que os democratas. Na França, os socialistas também ficaram bem menos tempo governando. Ou seja, o que isso prova? Que o mundo não é de esquerda. O mundo é do caminho do meio. Essa é a verdade.
Lula apresenta sua identificação com a “esquerda” como se não passasse de um grande mal-entendido. Mas os milhões de trabalhadores e jovens que historicamente apoiaram o Partido dos Trabalhadores o fizeram por enxergar o PT e seu principal líder — que veio do chão de fábrica e ascendeu à direção das greves massivas que confrontaram as grandes montadoras multinacionais e a ditadura militar brasileira — como a esquerda. Teriam sido vítimas de um delírio coletivo?
Há exatamente 40 anos, em 1986, entrevistado pela revista Socialismo e Democracia, Lula foi questionado sobre as diferenças entre o socialismo e as distintas formas de capitalismo. Sua resposta provavelmente escandalizaria a Sra. Georgieva e o Sr. Merz. Citemo-la extensamente:
Não vejo diferença entre liberalismo e capitalismo. O liberalismo, a bem da verdade, é uma prática, um sistema político no qual os senhores “feudais” aparecem como bondosos, como pessoas capazes de atender até uma reivindicação da classe trabalhadora e até permitir a greve ou algo nesse nível. As duas coisas são totalmente diferentes do socialismo, porque nele a classe trabalhadora precisa ter o controle dos meios de produção para poder determinar não só o que produzir, mas determinar o nível de salário e as condições de trabalho. Nos outros sistemas, a classe trabalhadora, praticamente, não tem chance de discutir ou de decidir isso. A classe trabalhadora é muito cerceada porque nos outros sistemas o que predomina são os interesses dos grupos que governam o país, sem que haja nenhuma possibilidade de participação da classe trabalhadora, ou seja, eles fazem concessão à classe trabalhadora desde que essas concessões não coloquem em risco aquilo que para eles é superior, que é a questão dos grandes lucros e dos grandes ganhos.
Indagado sobre a social-democracia europeia, foi categórico: “Não vejo a social-democracia como alternativa, como algumas pessoas tentam dizer, que será a terceira via. Não acho que possa existir a terceira via. Só pode existir social-democracia, em função da exploração a que são submetidos os povos do Terceiro Mundo.”
Apesar dessa retórica “esquerdista” e muitas vezes ambígua, Lula nunca foi genuinamente socialista. Ao rejeitar qualquer definição clara de sua teoria e programa, o PT deu nova vida à velha fórmula oportunista de Eduard Bernstein: “o movimento é tudo; o objetivo final — nada.”
Como o próprio Lula disse na mesma entrevista de 1986, em referência à Alemanha Oriental e a Cuba: “não dá para mim fazer diferença entre o socialismo que sonho e o desses países, porque o socialismo só é possível se fazer, de acordo com a cabeça dos brasileiros. [...] Temos que encontrar os nossos próprios meios e colocar em prática o sistema socialista no Brasil.”
A teoria empirista defendida pelo PT não foi invenção de Lula e dos sindicalistas do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC — a burocracia empenhada em conter a erupção de massas da classe trabalhadora brasileira do final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Essa base ideológica foi introduzida a eles por um grupo de renegados do trotskismo.
O grande patrono intelectual do PT e seu primeiro filiado foi Mário Pedrosa, fundador da seção brasileira da Oposição de Esquerda Internacional em 1930. No final daquela década, Pedrosa havia rompido com a Quarta Internacional, alinhando-se à oposição pequeno-burguesa de James Burnham e Max Shachtman. Foi esse repúdio consolidado ao marxismo revolucionário — e não qualquer ignorância — que ele emprestou à criação do PT.
Na conferência de fundação do partido, no Colégio Sion, em 1980, Pedrosa proclamou:
Partido de massas não tem vanguarda, não tem teorias, não tem livro sagrado. Ele é o que é, guia-se por sua prática, acerta por seu instinto.
O “instinto” que Pedrosa ergueu como princípio é a negação direta de tudo o que Lenin e Trotsky defenderam: que sem teoria revolucionária não há prática revolucionária, e que fora da luta persistente de um partido revolucionário de vanguarda para introduzir a consciência socialista no movimento vivo da classe trabalhadora, a espontaneidade o entrega à ideologia burguesa.
Com a bênção de Pedrosa, o Secretariado Unificado pablista e as correntes morenistas e lambertistas forneceram a base política para a formação do PT como instrumento histórico de canalização das lutas de massas da classe trabalhadora brasileira para o terreno seguro da legalidade burguesa. A apresentação de Lula como líder “de esquerda” e até “socialista” não foi um equívoco das massas. Foi o mecanismo central de uma operação deliberada para impedir que essas massas construíssem seu próprio partido revolucionário.
Após três mandatos presidenciais a serviço do capital brasileiro e imperialista, as ilusões de que o PT constitui uma ponte para o socialismo foram em grande medida destruídas. Apesar disso, uma enorme parcela dos atuais eleitores de Lula votou nele e apoia sua reeleição por enxergá-lo como a alternativa política de esquerda.
O mesmo vale para muitas pessoas ao redor do mundo que veem o presidente brasileiro como porta-voz da oposição de esquerda à ordem mundial injusta dominada pelo capital imperialista americano e europeu. Isso também não é um mero “equívoco”. É produto de uma enganação deliberada e sistemática.
Em abril, durante a Mobilização Progressista Global em Barcelona, falando explicitamente como representante dos “governos de esquerda”, Lula fez uma autocrítica calculada:
Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema.
E acrescentou que “o primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro”. Esse mea-culpa não passou de uma manobra para reconquistar os desiludidos com promessas de coerência futura.
Adaptação aberta à extrema-direita
Em Évian, Lula deu uma verdadeira demonstração de sua “coerência” ao afirmar que “o mundo não é de esquerda”. O “caminho do meio” que ele hoje apresenta como ordem natural das coisas está muito abaixo da “terceira via” da social-democracia que o próprio Lula um dia declarou ser impossível. É a adaptação aberta à extrema-direita: um ponto intermediário entre a velha social-democracia e o fascismo ascendente.
Lula apontou para os Estados Unidos e para a França como exemplos de sucesso eleitoral da direita, mas o exemplo que não quer calar é o próprio Brasil, onde o presidente petista travará em outubro uma disputa acirrada contra o fascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente condenado por tentativa de golpe. A lição implícita é que o programa da extrema-direita deve ser abraçado por refletir as aspirações populares.
Esse argumento repousa sobre duas fraudes políticas. A primeira é a identificação das eleições burguesas — moldadas em cada etapa pelo poder econômico e monopólio ideológico da elite capitalista — com a vontade autêntica das massas. A segunda é uma inversão da realidade que o próprio Lula havia demolido em Barcelona dois meses antes. As massas não se voltaram para o fascismo. Voltaram-se contra os partidos que chegam ao poder com retórica de esquerda e governam para o capital. Identificando corretamente esses partidos com “o sistema”, as massas buscam uma saída — encontrando à frente somente a demagogia da extrema-direita.
O governo de frente ampla de Lula instalou o ex-governador de direita Geraldo Alckmin como vice-presidente, impôs à classe trabalhadora um “novo arcabouço fiscal” de cortes sociais e percorre as capitais imperialistas leiloando os recursos naturais do Brasil. Em maio, na Casa Branca, Lula descreveu sua relação com Donald Trump como “amor à primeira vista”, ofertou as reservas brasileiras de minerais críticos e terras-raras aos EUA com a declaração de que “não temos preferência” entre os compradores imperialistas, e legitimou a invasão do Irã, a ocupação da Venezuela e o estrangulamento de Cuba.
Sua participação no G7 em Évian é a extensão lógica desse papel. Sentado ao lado de Merz, que eleva o orçamento militar alemão a níveis recordes e cogita abertamente armamento nuclear, e diante de Georgieva, que supervisiona a extração dos juros da dívida das nações mais pobres do planeta, Lula oferece os serviços da burguesia brasileira — equilibrando-se entre o imperialismo europeu, entrando em guerra direta contra a Rússia, e o imperialismo americano de Trump, que intervém cada vez mais abertamente no Brasil e em toda a América Latina.
“O mundo é do caminho do meio. Essa é a verdade”, garantiu Lula ao FMI. Isso é uma mentira; é a visão de um camada social falida que confunde sua própria desmoralização com a condição do mundo. As potências a quem Lula se curva, que impelem a humanidade rumo à catástrofe nuclear e descarregam os custos do colapso capitalista sobre as costas dos trabalhadores, estão gerando as condições para sua própria derrubada.
Da Europa às Américas, em greves e revoltas, a classe trabalhadora colide de frente com a austeridade, a guerra e a repressão estatal. Essa radicalização não caminha para o meio. Vai à esquerda. Ela varrеrá os aparatos podres da “esquerda oficial”, as burocracias sindicais pró-capitalistas e os Lulas que mantiveram pelas últimas décadas os trabalhadores sob controle policial, abrindo caminho para a construção de uma direção revolucionária trotskista entre classe trabalhadora do Brasil e do mundo.
