Português

Caso do operador pró-Trump Cerimedo abre a caixa de Pandora da corrupção, interferência eleitoral e ligações com o narcotráfico em toda a América Latina

Publicado originalmente em inglês em 2 de setembro de 2026

Fernando Cerimedo, o operador político argentino que atuou como principal assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz, está preso preventivamente em Santa Cruz de la Sierra, acusado de contratar homens armados para assassinar sua ex-companheira, a advogada e ativista boliviana Nadia Beller.

O secretário de Estado Marco Rubio com o presidente boliviano Rodrigo Paz Pereira em Doral, na Flórida, em 7 de março de 2026. Cerimedo aparece à direita. [Photo: State Department/Freddie Everett]

Beller, que está grávida, foi baleada três vezes do lado de fora de um hotel na noite de 17 de agosto por dois homens disfarçados de entregadores. Ela sobreviveu. Cerimedo foi preso na manhã seguinte, quando tentava embarcar em um voo para Buenos Aires, e teve a prisão preventiva decretada por 180 dias. Desde então, as autoridades bolivianas passaram a tratar Beller como testemunha sob proteção e a mantêm em local não revelado.

Outras três investigações foram abertas contra Cerimedo na Bolívia: por enriquecimento ilícito, após buscas que encontraram inicialmente US$ 40 mil em dinheiro e, segundo relatos posteriores, até US$ 500 mil em espécie e bens suspeitos; pela proteção de voos irregulares que partiam do município de Santa Ana, no Beni, supostamente transportando substâncias ilícitas em direção ao Brasil; e em conexão com um caso conhecido como “narcoencomiendas”, envolvendo a movimentação irregular de 350 mil bolivianos com a participação de um piloto e três policiais.

Em 29 de agosto, um tribunal boliviano decretou uma segunda prisão preventiva contra Cerimedo, desta vez por enriquecimento ilícito.

Cerimedo chorou publicamente em várias audiências, e, na mais recente, reclamou que sua vida havia sido destruída. O que está sendo destruído é algo muito maior. O homem por trás das operações de propaganda digital dos aliados de Trump em toda a região agora está sob os holofotes, e o material extraído de seu telefone ameaça derrubar governos inteiros.

A conexão com Trump

A posição de Cerimedo nunca foi a de um mero consultor de relações públicas. Seu sócio é Brad Parscale, ex-gerente de campanha de Trump e proprietário da Campaign Nucleus, que usa inteligência artificial para analisar o sentimento dos eleitores e gerar mensagens personalizadas para cada indivíduo. Em março de 2025, Cerimedo foi apresentado como representante latino-americano da Campaign Nucleus e da EyesOver, um projeto liderado por Parscale em colaboração direta com a família Trump.

A própria trajetória de Parscale ilustra o caráter dessas operações. Ele contratou a Cambridge Analytica para a campanha de Trump em 2016. Em janeiro de 2025, foi nomeado diretor de estratégia do conservador Salem Media Group. Em setembro de 2025, se registrou como agente estrangeiro do governo israelense, administrando um contrato de US$ 45 milhões que, segundo o Wall Street Journal, envolvia o envio de milhões de mensagens de texto geradas por IA para celulares americanos por um grupo que se autodenominava “Friends for Peace”. Segundo a Time, a operação tinha como objetivo produzir 100 conteúdos por mês, 80% deles direcionados à Geração Z, com o propósito explícito de impedir que jovens conservadores se voltassem contra Israel por causa de Gaza.

Cerimedo também teve ligações com Roger Stone, o autoproclamado “assassino político” e homem de confiança de Trump há décadas. Stone foi um dos principais lobistas por trás do perdão concedido por Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que havia sido condenado por traficar mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos.

Em fevereiro de 2026, na primeira “Gala Hispânica” realizada em Mar-a-Lago, Cerimedo recebeu o prêmio de “Consultor Político Hispânico do Ano”, entregue pessoalmente por Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre pena por liderar uma tentativa fracassada de golpe em 2022. Eduardo Bolsonaro elogiou Cerimedo por ter “tido a coragem, da Argentina, de ajudar o Brasil” ao disseminar as mentiras sobre fraude eleitoral em 2022 usadas para promover o golpe fracassado.

Cerimedo recebe de Eduardo Bolsonaro o prêmio de Melhor Consultor Político Hispânico em Mar-a-Lago. [Photo: @FerCerimedo_ok]

A profundidade dessas relações se manifestou publicamente quando Marco Rubio apareceu ao lado de Paz e Cerimedo em Doral, na Flórida, durante a cúpula “Escudo das Américas”. Esse é o verdadeiro conteúdo da ofensiva hemisférica de Washington. As operações políticas e militares conduzidas sob a falsa bandeira do combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas são realizadas por figuras que agora são alvo de investigações criminais por organizar operações de narcóticos, fazendas de bots e assassinatos por encomenda.

Brasil, Honduras, Chile, Colômbia

O padrão é consistente em toda a região: operações digitais agressivas baseadas em contas automatizadas, seguidas, após a vitória, pela instalação dentro do novo governo, quase sempre sem qualquer cargo formal que implique prestação de contas.

Brasil. Cerimedo trabalhou na estratégia digital de Bolsonaro em 2018 e 2022 e, posteriormente, apresentou uma transmissão ao vivo no YouTube que atraiu 400 mil espectadores, na qual alegou que a vitória de Lula havia sido fraudulenta. Um relatório de 135 páginas do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes apontou seu papel específico na desestabilização que se seguiu, por meio das “milícias digitais” que estabeleceram a narrativa de fraude.

Honduras. Cerimedo assessorou a campanha de Nasry Asfura em 2025 e afirma ter articulado o apoio de Trump na Truth Social dias antes da votação. Marlon Ochoa, então membro do Conselho Nacional Eleitoral, afirma que a voz de Cerimedo aparece em gravações que entregou ao procurador-geral em 23 de dezembro, nas quais o interlocutor diz que votos foram acrescentados para Asfura em determinadas urnas, votos desfavoráveis foram retirados e as Forças Armadas já estavam alinhadas. Ele também orienta que uma recontagem voto a voto deveria ser recusada.

Chile. O país onde as operações de Cerimedo estão documentadas há mais tempo é também aquele onde o caso judicial agora é mais amplo. O deputado do Partido Socialista Juan Santana apresentou uma denúncia criminal em Valparaíso em 27 de agosto, remontando a intervenção de Cerimedo a outubro de 2020, quando sua empresa de consultoria Numen publicou uma pesquisa no El Mercurio sobre o referendo para substituir a Constituição herdada da ditadura de Pinochet. A pesquisa da Numen apontava 42% de aprovação contra 34% de rejeição, prevendo uma disputa cada vez mais acirrada. O resultado real foi de 78% a 22%. O principal foco da denúncia é uma rede de contas coordenadas que opera no X desde 2024. Um relatório da própria coalizão de direita tradicional Chile Vamos, publicado pelo Ciper, constatou que cerca de 38% das contas que participavam de ataques coordenados contra a candidata presidencial Evelyn Matthei também apoiavam o Partido Republicano de José Antonio Kast – inclusive com a alegação fabricada de que Matthei sofria de Alzheimer.

Colômbia. O ex-presidente Gustavo Petro afirma que material forense extraído do telefone de Cerimedo dá fundamento às suas acusações de manipulação em massa de eleitores por meio de dois milhões de contas de bots operadas a partir de fazendas automatizadas, inclusive em Miami, durante o processo que levou o fascista Abelardo de la Espriella à presidência.

Peru. Cerimedo tornou pública uma reunião realizada em 2023 com Carlos Díaz-Rosillo, que havia sido assessor sênior de Trump para assuntos de segurança internacional, escrevendo que “coisas muito boas estão por vir nos próximos anos”. Díaz-Rosillo agora dirige o Adam Smith Center for Economic Freedom, que contratou a presidente de extrema direita Keiko Fujimori como instrutora, por US$ 45 mil, no ano anterior à sua eleição. Ele desempenhou um papel central na campanha eleitoral de Keiko.

México. A presidente Claudia Sheinbaum acusou Cerimedo de disseminar notícias falsas por meio de trolls nas redes sociais. Ele admitiu abertamente operar fazendas de bots, dizendo ao La Nación: “As pessoas sabem que elas existem, então por que mentir?”

Dinheiro, drogas e o aparato estatal

O rastro financeiro é o elemento menos investigado e potencialmente o mais explosivo. O senador Leonardo Roca, da Alianza Libre, de direita, revelou que um relatório do Instituto de Investigações Forenses da Bolívia identificou uma carteira de criptomoedas fria vinculada ao telefone de Cerimedo, cujos ativos foram posteriormente transferidos para dez contas, uma das quais concentrou valores reportados em US$ 130 milhões. Roca anunciou uma comissão de investigação do Senado.

Beller alega que Cerimedo manteve conversas com operadores do narcotráfico e articulou autorizações para que aeronaves leves decolassem do leste da Bolívia, disfarçadas como um sistema de rastreamento por radar. Ela afirma que Cerimedo se gabava de receber US$ 800 mil por mês por meio de sua relação com a presidência boliviana e que “Rodrigo Paz não governa a Bolívia – Fernando Cerimedo governa”.

O procurador-geral da Bolívia confirmou que Erik Correa González, chefe da inteligência de Paz, manteve contato com Cerimedo. Mensagens de texto indicam que Correa o informava em tempo real sobre o ataque contra Beller. Correa reconheceu perante os promotores que os dois mantinham contato, dizendo que o assunto era “segurança”.

O que este caso expõe são os mecanismos antidemocráticos por meio dos quais Washington reconfigurou o hemisfério. Enormes quantias – cuja origem ainda não foi determinada – foram canalizadas para fazendas de bots, redes de desinformação e operações de microdirecionamento destinadas a manipular a opinião pública e instalar governos que funcionam como instrumentos da política dos Estados Unidos.

No entanto, a responsabilidade pelo sucesso dessas operações não cabe apenas a Washington. O apelo de Petro para que o “progressismo mundial” derrote esse projeto ignora seu próprio histórico. Os governos nominalmente de esquerda da “Maré Rosa” impuseram as exigências do capital financeiro à classe trabalhadora e se acomodaram a Trump a cada passo. É essa falência que criou o terreno social sobre o qual a extrema direita cresceu.

Loading